quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Glória

Toda dia, na mesma hora da noite, eu sinto essa dor de cabeça e esse vazio no peito. Eu tenho que ficar vadiando por ai, dando voltas no quarteirão, para só então ir pra cama, completamente exausto, evitando assim ter que passar horas encarando a escuridão na desagradável companhia dos meus pensamentos. Eu estive tempo demais comigo mesmo, me analisando, olhando através dos meus desejos mesquinhos e das minhas frustrações e agora eu não suporto mais ser o fracasso enrustido que eu sou. Eu queria ter a coragem de me tornar um fracasso completo. Eu queria ter a integridade que se precisa ter para desistir. Eu ainda sou tolo o bastante para sonhar com alguma forma de recompensa, algum tipo de satisfação narcisista. Eu ainda sonho com glória, seja lá o que for isso. 

Eu li a respeito de um menino Buda que vive no Nepal. Aparentemente ele pode ficar meses sem se alimentar, meditando e peregrinando pelas selvas. De vez em quando ele aparece e conversa com as pessoas. Eu tenho uma inveja do caralho desse cara. Ele tem 18 anos e já descobriu que o custo da liberdade é desistir de si mesmo e vomitar essa porra toda que te empurram goela abaixo desde o minuto que você nasce. Perambular pela floresta em busca de paz interior e autoconhecimento, o que pode ser mais transgressor do que isso? “Fodam-se vocês com suas patéticas ilusões amorosas e seus planos de carreira! Eu não preciso dessa merda! Isso é veneno para o espírito!”. 

Sabedoria é mesmo uma qualidade dos fodidos, dos sem esperanças, daqueles que ultrapassaram a cortina de fogo do egocentrismo e descobriram o que há por trás da miragem. Eu queria ter a audácia para isso, mas eu sou mimado demais. Muitos sonhos de glória ainda terão de ser despedaçados antes que eu decida partir para a escuridão das selvas e não me sinta só na companhia dos meus pensamentos.

3 comentários:

Luiza Silvestrini disse...

é... é isso!

Murilo Costa disse...

esse post me diz tanto que nem sei como não tem meu nome, para parafrasear um gênio aí

Dafne disse...

a floresta não é de escuridão é de Luz.
Você já se deu conta, mas sua mente não quer (a nossa mente tenta sempre nos puxar para a materialidade, para o sofrimento). Não pense que você não pode se desgarrar aos poucos das ilusões e transpor os véus dos apegos, vaidades, dos venenos da mente e do próprio ego.
O refugio da floresta está dentro de nós.
"Aprender o caminho de Buda é aprender sobre si mesmo; aprender sobre si mesmo é esquecer-se de si mesmo; esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo que existe no mundo; Ser iluminado por tudo que existe no mundo é deixar-se aquietar no próprio corpo e na própria mente"