terça-feira, 9 de outubro de 2007

Efeito Néon

Desci a Augusta feito um sonâmbulo, porra quente nas minhas pernas, fruto de uma bolinada com uma colegial de sorriso tímido e mãos ágeis que me prensou contra um muro escuro de uma travessa qualquer, presenteou-me com sua saliva com teor de cannabis e com uma punheta de 6 minutos. Uma mistura de euforia alcoólica e efeitos colaterais do orgasmo tiraram o foco da minha vista e adulteraram meu senso de direção, mas de algum modo cheguei aonde devia chegar.

Morto, assim Gabriel parecia estar quando o encontrei deitado de costas a margem da pista de dança. Me aproximei e notei em seu semblante uma já característica expressão angustiada, como de um profeta mudo diante da extinção de sua civilização, condenado ao peso de seu dom inútil e incapaz de fazer algo mais do que assistir ao apocalipse de sua própria era. Olhos abatidos, fixos no canto mais escuro da casa. Tentei localizar algo ali, mas não havia nada, apenas trevas. Chutei-o entre as costelas e perguntei se ele estava bem. Ele moveu a cabeça uma distância insignificante, quase imperceptível, apenas o suficiente para me encarar e fazer um gesto afirmativo. O pus de pé sem dificuldades e caminhamos vagarosamente para fora dali.

Sentamos em frente a um boteco, lado a lado, sem dizer uma palavra. Gabriel continuava a fitar algum acontecimento passado, futuro ou fictício, e mantinha se distante da minha presença. Fingi que não ligava, como sempre faço, e fiquei observando a movimentação das boates, dos bares e das putas. Um carro de policia espantou uma roda de maconheiros, entre eles a garota com quem tinha me entretido há alguns instantes. Ela me pareceu bem sem graça a distância. Porra de Augusta, o clichê máximo de todos os clichês ambulantes de São Paulo. Os boêmios cheios de pose, os falsos poetas, punks dos jardins e skinheads de pele parda. Porteiros de boate encaram tudo com desinteresse e as putas parecem ser as únicas a se camuflar. Passarela do exibicionismo de todos os orgulhos bizarros, fetiches forçados e da vaidade reprimida nas demais ruas. Nada é real e a última coisa que importa é ser autêntico. Desconfio até mesmo de pensamentos quando estou aqui, como se estivesse em um universo paralelo cujo efeito é semelhante a uma droga alucinógena que me faz acreditar que eu seja o que fantasio ser. Ao meu lado, Gabriel suspira, sufocado pela máscara que escolheu usar hoje a noite.

Subindo rua, do lado oposto da calçada, um casal de mãos dadas escarrou em nosso rosto com sua mera presença. A realidade naquele andar sincronizado, no sorriso abobado, no entrelaçar dos dedos e na essência de todo aquele afeto causou um turbulento despertar em mim e em meu amigo. A rua pareceu se desintegrar sob nossos pés junto com todas as ilusões ali criadas. Um vórtice engoliu todo o cenário fantasmagórico de libido e néon que milhares de sonhadores ébrios haviam criado ao longo de décadas. Fiquei nu do meu disfarce de pervertido, alucinado, selvagem e inconseqüente, do meu niilismo narcisista, do meu ego ferido pelo abandono. Gabriel se livrou da indumentária poética trágica, da melancolia febril e charmosa, do olhar épico de Che Guevara, do amante rejeitado e do suicida adorável. Estávamos ambos reduzidos a nossa verdadeira essência, dois moleques estúpidos, entediados que preenchem suas vidas com tormentos que não possuem, com amores que não desejam, com cicatrizes aonde nunca houveram feridas, buscando uma cura para a própria existência alienada fútil, sem nunca olhar para fora de si mesmos e enxergar o que realmente se passa no mundo. Quando o casal dobrou a esquina e desapareceu, nossos olhares se encontraram surpresos, vivos, quase infantis. Sem dizer nenhuma palavra, caminhamos em direção da Paulista. Sobre nós o Sol despertava.

3 comentários:

Luciano Costa disse...

A Augusta é onde o mundo acontece. A gente descobre tudo e se descobre.

Anônimo disse...

Onde não tem desses antros? Desses lugares onde as pessoas são tão auto-declaradas?

Quem sabe, a própria Augusta exija isso, e faça parte da estética do lugar transparecer a falsidade da postura adotada.

Um homem de paletó uma vez me convidou para conhecer "a casa" que ele possuía na Augusta. Eu estava passando com o olhar perdido, sem saber onde me enfiar. Ele fez o convite e mal adiantou eu pensar em um lapso "mas ainda tenho dezessete anos, não posso entrar", porque mal deu tempo para recuperar o fôlego (quando eu falo comigo mesmo, mesmo em pensamento, preciso respirar), e já apareceu uma puta com peruca de cor berrante (ou será que era uma trava?) se insinuando para mim.

Tento ao máximo me libertar do clichê, mas é quase impossível. O clichê é uma coisa tão correta, tão batida, que já faz parte da minha vida. Por isso é clichê. Essa tinha sido a minha primeira madrugada na Augusta. Na última, fiquei muito feliz em ouvir um pessoal tocando música sob a marquise de um edifício de entrada funda. Dizia algo como "a mulher do diabo... sim... wla é a mulher do diabo". E eu pensei "O diabo anda por aqui sem coleira". Mentira. Ele anda mais nos corredores de escolas do que nessas ruas sujas.

Este passeio é para lavar a alma.

Anônimo disse...

Meu bebê cresceu....
Buáááááááá